"(...) Fernão Capelo Gaivota! É chamado ao centro! As palavras do Mais Velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra.Fernão Gaivota, disse o Mais Velho - é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes! - ...pela sua irresponsabilidade - entoava a voz solene - por violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas...Irresponsabilidade? Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Se todos nós formos alienados seguindo os Mais Velhos, sob uma capa de “conhecimento acadêmico” limitadíssimo e fragmentado pela própria limitação da mente o mundo desconheceria a intuição e a emotividade. Dêem-me uma oportunidade, deixem-me mostrar-lhes o que descobri. Essa atitude cética de ver a vida não consegue dar uma perspectiva mais clara do mundo humano e não consegue porque usam sua rotina prática para distrair-se, para restringir a vida apenas às suas condições práticas. E fazem isso para evitar a lembrança de como se sentem inseguras em relação ao motivo de estarmos vivos e o que está por trás da vida biológica neste planeta. Por que estamos aqui na verdade?(...) Fernão Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as esperava. Recusavam-se a abrir os olhos e a ver.(...) Quase todos nós percorremos um grande caminho. Fomos de um mundo para outro, que era praticamente igual ao primeiro, esquecendo logo de onde viéramos, não nos preocupando para onde íamos, vivendo o momento presente. Tem alguma idéia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que lutar, ou ter uma posição importante dentro do bando? Mil vidas, Fernão, dez mil! E depois, mais cem vidas até começarmos a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem vidas para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição e levá-la ao extremo. A mesma regra mantém-se para os que aqui estão agora, é claro: escolhemos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendermos neste.(...) - Fernão, você foi banido uma vez. O que é que o leva a pensar que alguma das gaivotas do seu tempo o ouviria agora? As gaivotas que você deixou estão no solo, gritando e lutando umas com as outras. Estão a mil e quinhentos quilômetros do paraíso, e você diz que lhes quer mostrar o paraíso, de onde estão! Fernão, elas nem vêem a própria ponta das asas! Fique aqui ajudando as novas gaivotas, essas que estão suficientemente cultivadas para compreenderem o que você lhes tem a dizer. - Não compreendo como você consegue amar um punhado de pássaros que acabam de tentar matá-lo.- Oh ! Chico! Não é isso que você ama! Você não ama o ódio e o inferno, é claro. Você tem que treinar até ver a verdadeira gaivota, o que há de bom em cada uma delas, e ajudá-las a ver isso nelas próprias. Para mim, o amor é isso. Quando você conseguir compreender e por isso em prática, até achará divertido.- Pobre Chico! Não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo que mostram é limitação. Olhe com o entendimento, olhe além dos sentidos, do intelecto e da mente. Olhe além do corpo físico e descubra o que você já sabe intuitivamente, e então, verá como voar. O brilho extinguiu-se. Fernão Gaivota desapareceu no ar."
Bach, Richard. FERNÃO CAPELO GAIVOTA. Nórdica
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